segunda-feira, 13 de abril de 2009

Jogando ovos

         “Feliz Páscoa!”, ouço minha avó desejar para mim o que deseja todos os anos para seus filhos, netos, netinhos, vizinhos, amigos, agregados e alguns mais. Ouço desde que me entendo como gente, regalado com um gostoso ovo de páscoa.

            Aquela correria todo me diverte! Algumas tias cantando a música do coelinho, tios tomando aquela cerva gelada e comendo aperitivos, “O almoço tá na mesa!”, aquela correria dos famintos pelos quitutes diversos e pela mesa farta (“Cada família traz um prato, então não esqueça daquele seu pavê de doce de leite!!!), e a também confusa bagunça feita pelas crianças lambuzadas do chocolate que ganharam ou que pegaram de um primo alegando que não era de ninguém (Será que o coelho ainda não havia entregado a ninguém aquele ovo?!?!). Me divirto!

            Sempre gostei de catar os ovinhos espalhados pelo jardim da casa do meu bisavô, junto com dezenas de pessoas – quase uma centena – mas não acho mais graça nisso. É, o tempo passa e nossos gostos vão mudando. Deixei de procurar chocolate e passei a pegar “aquela gelada” no isopor. Mas já gostei muito achar aquele ovo todo colorido atrás daquele arbusto! Acho que toda criança deve adorar o mesmo, e merece ser presenteada com este chocolate tão procurado. Traz alegria!

            Bem, felizmente fui criado nesta família, que para mim é a melhor de todas (e muitos de fora concordam comigo, então sem achar que é bairrismo ou algo o tipo, por favor!). Mas logo que viro algumas esquinas depois de sair do portão da festa reparo que alguns (muitos alguns) não podem usufruir dessa alegria. Crianças, meninos de rua, ou como quiser chamar. Aquelas pequenas pessoas, com poucas chances de realmente serem pessoas pra sociedade, catam, ao invés dos doces ovos de páscoa, algum trocado ou algo valioso que, assim como aquele chocolate, “não era de ninguém”.

            É triste. E a alegria? Bem, não acho que seja justo, mas tampouco me imagino distribuindo chocolates pelas ruas como num dia de São Cosme e São Damião, “Quem quer doce?!”.

            Algo precisa ser feito, isso é óbvio e redundante até de se falar. Aquele velho papinho de que “todos criticam, mas ninguém faz nada”. Discordo dessa afirmação. Não acho que todos critiquem, alguns acham até bonito e se gabam de ter o que a maioria não possui. Babacas.  E sei, conheço e até me incluo de certa forma entre aqueles que fazem algo.

            Uma mobilização, originária de uma sensibilização social, é necessária. Todo ser humano tem direito a uma infância alegre e repleta de chocolate. Sei que esse apelo está sendo feito ao receptor errado, já que estas crianças não têm muitas escolhas e não são elas que devem agir; tampouco lerão este texto, mas a intenção pode ajudar ao leitor se sensibilizar e agir: Meninos, parem de jogar limões para cima, troquem estes limões por ovos de páscoa! Parem de pensar que só os ratos existem; coelhos branquinhos e fofinhos também olham vocês!!!

 

            Para a igreja católica a Páscoa é uma festa originalmente cristã e envolve uma reflexão dos fiéis sobre a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Ressurreição significa voltar a viver, ressurgir, voltar a ser visto como “ser” pela sociedade. Viva a ressurreição de pessoas que ainda não puderam ter o privilégio de ser crianças! Que elas deixem de ser apenas visíveis e passem também a ser notáveis!

 

Talvez dar uma de São Cosme seja uma boa idéia, mas presentear crianças com doces não é a única forma de torná-las alegres. Antes de torná-las crianças alegres, é preciso torná-las, simplesmente, crianças.


Feliz ressurreição!

 

Lucas R. Bastos Cunha

Um comentário:

Fernandinha disse...

Luquinhas, li ontem na coluna do Jabor um texto ótimo sobre os meninos de rua...

Tenta pegar o texto na net....
Lembrei lendo seu texto...

Adorei. bjocas
Fêee (Facha!)